Leandro Souto Maior, JB Online
RIO - Dependendo do ponto de vista, o Kiss pode ser uma grande banda de rock. Ou a maior picaretagem da história. Não fosse pela música, diriam que é só botar a língua para fora e já está de bom tamanho.
No meio da Passarela do Samba, nada de teclados, metais, cordas ou bases pré-gravadas. O que se viu nesta quarta-feira, na Praça da Apoteose, foi um som não muito diferente do feito por Rolling Stones ou The Who - embora o Kiss seja usualmente colocado, de forma equivocada, no mesmo balaio de bandas mais pesadas como Iron Maiden, que tocou numa Marquês de Sapucaí muito mais cheia.
No palco, quatro senhores beirando os 60, idade que não aparentam sob as maquiagens.
Se não são mais tão bons de criação, pelo menos no tributo a si mesmos mostraram total propriedade. O repertório integra o clássico álbum ao vivo Alive (1975), base da primeira parte do show. Ela é executada com precisão, nota por nota, inclusive pelos que não integravam a banda no disco original, o guitarrista Tommy Thayer e o baterista Eric Singer. O público, vestindo camisetas pretas com estampas de todas as fases da carreira do Kiss, reverenciava com respeito.
Na sétima música, Parasite, o céu caiu sobre as cabeças dos cariocas, borrando as impecáveis maquiagens dos que foram vestidos a caráter, imitando as máscaras de Paul Stanley e Gene Simmons. Enquanto muitos fãs de primeira viagem se abrigavam embaixo das marquises nas laterais da avenida, os kissmaníacos de verdade não arredaram o pé sob a chuva.
– Não me importo com a chuva – bradou Stanley.
A despeito de fazer valer o preço do ingresso (R$ 160, pista e R$ 350, pista vip) com muitos fogos, telões, sangue articial e efeitos de luz, várias vezes o grupo deixou transparecer estar ali só pelo profissionalismo.
Tudo parecia ensaiado há 35 anos. Sequer os Rolling Stones revelam-se tão enfadados ao vivo. Para piorar, ficaram devendo o voo pirotécnico de Stanley sobre o público em Love gun (clássico que não foi executado) e o içamento de Simmons durante seu momento cospe-sangue. As plataformas laterais que elevam os músicos não foram acionadas, embora as estruturas para todos os manjados momentos do show estivessem lá, montadas.
Rio não viu show completo
– Foi quase um pocket show em relação ao de 1998 – lembra o advogado Eduardo Vianna, que estava em São Paulo na última passagem do Kiss pelo Brasil, quando o Rio ficou de fora do roteiro. – Naquela ocasião distribuíram óculos 3D e tocaram números emblemáticos que não foram repetidos desta vez.
Duas precisas horas após o início, a apresentação foi encerrada com Detroit rock city. O show, marcado por certa frieza, não fez jus à frase que abre todos os shows do grupo desde sua fundação: “Vocês queriam o melhor e terão o melhor, a banda mais quente do mundo… Kiss”. Mesmo assim, talvez pelos 26 anos desde a última passagem do grupo pelo Rio, era difícil ficar no chão e tirar os olhos daqueles quatro tocando de maquiagem no rosto e caras de malvados.
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